4 de mai. de 2015

Origem de tudo, segundo a mitologia japonesa.

| Quem escreve Kvothe às 23:28




Olá pessoal, esse é meu primeiro post e eu espero que gostem! Uma curiosidade é que o início de tudo não começou com o Deus e a Deusa Izanami e Izanagi, como verão no decorrer da história :)



 No início dos tempos, havia apenas uma disforme esfera oval, duplamente maior que a Terra, Flutuando silênciosa no negro infinito. Vida alguma era abrigada em seu ventre e astro algum iluminava o céu. Durante muito tempo foi, até que a indefinida esfera foi lenta e vagarosamente repartindo-se em duas, como quando o corpo dorme e a alma se põe a sonhar. Eis que se põe a subir calma, leve e vagarosa, alcançando com suave perícia o pai de todos os cumes, o monte takachiho, e instalou-se acima do topo, que já era tão alto que perfurava uma densa camada de nuvem. 

Takaamahara é como passou a se chamar esta parte azulada espiritual que virou o que poderíamos intitular de céu japonês. Acomodou-se lá no altíssimo firmamento e ali permaneceu à espera dos Kami(mesmo no plural kami se escreve, apenas com kami), que em poucas eras estavam por vir. A outra metade da esfera, no entanto, pesada, parda e densa, foi tombando como o peso de um ovo na leve clara, precipitando-se pelo abismo infinito. As pedras que haviam se saltado da separação foram sendo atraídas gradativamente e ela mais uma vez, unindo-se, de modo a carregá-la mais e mais até atingir uma consistência firme e puramente física, mudando sua cor para um tom negro-encarvoado.
Assumiu, enfim, uma forma geoide, e a água espalhou-se em volta dela. Os dedos gelados de uma névoa densa e escura envolveram esta parte descartada dos céus que permaneceu esquecida pelos imortais durante sete gerações de deuses. Takaamahara, a Planície dos Céus Elevados, ao contrário da Terra, logo atraiu os Kami. Três deles, colossais demais para serem apreendidos numa única olhada, surgiram nos céus, vindos de um lugar incógnito, só conhecido por eles. Chegaram prontos para criar e desenvolver o caótico e misterioso mundo celeste que a mente humana não prima por entender. -Acenderei uma luz nesta escuridão- disse o altamente venerável e desenvolvido Amano Minakanushi no Mikoto, falando na linguagem dos deuses. Focalizou o firmamento com o terceiro olho, e fez brotar de suas longas e finas mãos uma bola de fogo dourada que arremessou às alturas, onde ela se fixou para todo o sempre. Deu-lhe o nome de Estrela Polar. -Honoráveis Irmãos- disse o segundo deus, Takami Musubi no mikoto. - Eu criarei as Maravilhas Celestes. Pôs-se a mover as mãos envoltas em chispas chamejantes e fez brotar uma imensa bola branca de fogo que arrojou para o alto, ao modo de como o deus primeiro. Nomeou o novo ser celeste de Lua. Concentrou novamente todo o seu ki - fogo que queima nas estranhas e é a energia vital de todos os seres vivos - e fez surgir outra bola de fogo, porém de uma cor vermelho- alaranjado e quatrocentas vezes maior do que a anterior. Arremessou-a igualmente ao alto dos céus, ofuscando instantaneamente as criações anteriores. Chamou-a de Sol. Colocou, então, dois dedos no centro da testa e tornou a se concentrar: flocos de neve caíram dos céus, levando os três irmãos a se encolherem de frio e cobrirem com o capuz as cabeças ainda quentes do Sol. Expulsaram os flocos da neve resplandecente que cobria seus mantos coloridos e se puseram a observar o campo celeste que ia ficando mais alvo e fofo do que as brancas nuvens. A nevasca se transformou em uma chuva muito fina e fortes ventos varreram os quatro cantos da galáxia, de ponta a ponta, controlados docilmente pelas mãos do honorável Kami. Raios e relâmpagos cortaram, nesse dia, o firmamento com seus clarões dourados e estrondos retumbantes, virando uma terrível tempestade. A pouca chuva se transformou num aguaceiro que lavou e fertilizou o solo celestial pela primeira vez na vida. -Eu, por minha vez, criarei os Tesouros Celestes- disse a seus irmãos a terceira divindade, Kami Musubi no Mikoto, tão logo a tempestade amenizou. 


Espalmou as longas e finas mãos sobre o solo irrigado e fez surgir os mais exóticos bosques, pomares e jardins, que se ergueram do chão de um minuto para outro, crescendo a olhos vistos, como se um segundo representasse um século. Deleitou-se o deus criando montanhas e penhascos, mares e rios, pássaros e peixes, flores e corais. Cachoeiras desciam agora livremente ao pé da montanha, abaixo do voo de esplêndidos faisões. A límpida água corria nos largos e lentos córregos celestiais com toda sorte de murmúrios, fluindo através do coração de Taakaamahara, sem cultivo ou trabalho algum, cobriram os campos alagados com seus tapetes amarelos, independente do clima, do tempo e das estações de maduração. Logo o céu borbulhava de cores e arte, graças ao capricho destes fecundos criadores de inesgotável imaginação. Tão logo concluíram suas obras-primas, retiraram-se anonimamento dos céus e seguiram para um refúgio incógnito que somente os deuses conheciam. 

Já cansaram de ler? Falta só um pouco pra terminar, aguentem firme!


 As três grandes divindades deram as coisas a Takaamahara, o céu japonês, que fico pleno de vida, mas deserta de deuses. Pouco, no entanto, foi o tempo em que as coisas assim permaneceram. Certa noite, surgiu na floresta de bambuzais um diferente broto de bambu, que foi se tornando mais brilhante que a própria face da Lua. De repente partiu-se num repente. Dois pares de olhos, de órbitas finas e horizontais, piscaram vivamente entre as trincadas taquaras. Eram dois deuses. Logo então coloram os pés no chão, olhando curiosamente em volta de si, à procura de
inspiração e ideais para fazer o que vieram fazer: criar. Mas as suas mentes estavam vazias de imaginação e fantasia. Puseram-se, então, a meditar profundamente, foi nesse cenário plácido e sagrado que atingiram o alfa. De olhos fechados, músculos relaxados e com as mãos em formato de concha, postas afetivamente em frente ao abdômens, concentraram a energia vital e divina de seus Ki. Esta poderosa força criada em seus íntimos físicos - que os fazia entender o mundo e a si mesmos - emanou para suas sagradas palmas, que, encaixadas harmoniosamente, moldavam minúsculas esferas de luz que explodiram no ar. De tal intensidade era o brilho e cor que tudo mais se tornou contrastante; aquilo que a luz atingiu se traduziu em branco absoluto e a sua ausência desenhava ilimitadas tonalidades negríssimas, num forte contraste luz-e-escuridão. Ao fim, bilhões e bilhões de multi coloridas estrelas emanaram das mãos dos divinos deuses com perfeição e naturalidade. Toda escuridão da noite se dissipou com a fantástica explosão de tons e brilhos faiscando em toda aquela negra imensidão desvirginada: asteróides, cometas, enxames celestes, galáxias, nuvens de pó cósmico, nebulosas e milhões e milhões de outras espécies de corpos celestes. No afã do movimento deixavam atrás de si rastros de pó brilhante no denso negrume que mexiam com a imaginação criadora, de qualquer um que os visse. Recebeu o nome de Via Láctea. - Acho que exageramos. - exclamou um deles, de olhos postos no excesso de luz e cores que resultara a brincadeira. - Ficou tão luminoso que acabou por clarear até a sombria Terra lá embaixo - respondeu o outro deus pousando os olhos amendoados na Terra. Foram então desaparecendo de fininho, deixando atrás de si o céu semeado de estrelas. Fim.

0 | Comentários:

Postar um comentário

.

.
 

Eros e Psique Template by Ipietoon Blogger Template | Gift Idea